segunda-feira, 14 de agosto de 2017

O pior muro é aquele que você não quer ver

Os muros mais resistentes e duradouros são aqueles construídos com os tijolos da vaidade pessoal. São muros, por assim dizer, fixados na alma, que escondem aquilo que em nós não gostaríamos ver.

Precisamos, então, usar uma força interna colossal para que tais muros possam desmoronar e, assim, nos vejamos assombrosamente "nús" diante de nós mesmos.

domingo, 30 de julho de 2017

O Equilibrista

Amadurecer é equilibrar-se: ter a coragem para encarar o abismo do real, mas sem perder a leveza da imaginação.

sábado, 14 de janeiro de 2017

Contador de Histórias

O ar frio da aurora
Era sinal de novas caminhadas:
O sol despontava
E você me contava
Que não se cansava
De contar novas histórias.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Confissões de Sórel

Eu sempre fui minha única verdadeira companhia. Ter pensamentos profundos tem seu preço. Durante certas épocas, esse preço me pesa. Tento fugir da minha condição fundamental: a de que sou basicamente solitário; por vezes, sozinho também.

Por mais que tenha tentado encontrar durante toda a minha vida uma companhia que esteja autenticamente ligada a mim, a verdade é que, no final das contas, fracassei. Ou, em outras palavras: perdi uma ilusão. Mas como tenho um forte para gracejos, posso dizer que saio ganhando: menos uma ilusão nesse mar de ilusão que é viver. Sou uma ilha diante desse mar. Apesar disso, uma ilha exótica e profundamente vaidosa. Orgulhosa de ter consciência de que é rara e de difícil acesso, por isso de alto valor. E se digo “alto valor” é porque sei o quanto a minha condição - de solitário - e a consciência dela me coloca num estado fecundo para o pensamento, para o êxtase da introspecção contínua e diária e para a invenção de ilusões próprias, por isso radiante como ouro.

Não tenho nada contra as ilusões em si, mas condeno quem tem as que não lhe são próprias. A ilusão foi o primeiro ato do nosso primeiro ancestral provavelmente, sem ela não teríamos sobrevivido e chegado até aqui. 

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Shopenhauer Update

A vida é um pêndulo entre o tédio e a intensidade.

Intensidade: quando vivemos um segundo de Eternidade.
Tédio: quando vivemos a eternidade de 1 segundo que não passa...

sábado, 9 de abril de 2016

Antipolítico

Ser antipolítico em meio a toda essa gritaria virtual e ao barulho oco das vozes da multidão, ser antipolítico em meio a toda essa histeria política da nossa época, é uma postura pessoal que aponta para a perspectiva de que a política não é a principal dimensão da vida: posições, opiniões, engajamento em causas sociais e lutas políticas são apenas disfarces de gostos, temperamentos e interesses pessoais sorrateiros, ou seja, são máscaras para tudo aquilo que silenciamos no nosso cotidiano e que, não raro, não declaramos nem para nós mesmos.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Filosofia e Perigo

Quando a Filosofia deixa de ser algo perigoso, quando ela perde seu caráter de experiência assombrosa e inquietante, então ela já não é mais "Filosofia"...

domingo, 7 de fevereiro de 2016

A Redenção da Preguiça

Para continuarem vivas, as pessoas preguiçosas sabem, no fundo, que, apesar da sua preguiça, precisam ter o trabalho de provar, para si mesmas, que elas fazem algo de relevante na vida. Sem isso, a preguiça seria acrescida de uma consciência niilista sem máscaras nem pretextos, beirando a uma apatia completa, a uma paralisia total. O suicídio seria uma saída natural; em outras palavras, seria a confirmação de uma real consciência da desimportância.

No entanto, as redes sociais, hoje, funcionam muito bem ao dar uma aura de importância e de reconhecimento às pessoas por simplesmente elas não dizerem e não fazerem nada de autenticamente relevante nas suas vidas concretas. Ou seja, as redes sociais reconhecem também a falta de empenho intelectual, de autenticidade vivencial e de criatividade de pensamento da existência indolente. As redes sociais são o Rivotril cultural da nossa época. Evitam o suicídio em massa dos preguiçosos.

domingo, 2 de agosto de 2015

O Lobão Tem Razão!

Uma canção de 1988 com ares de 2015. Uma letra atual para uma sociedade com compulsão pelo exibicionismo pessoal e que vive, assustadoramente, a "cultura da celebridade". O Lobão de 88 acertou sobre 2015.

  É Tudo Pose

Na vida hoje
É tudo pose

Todo mundo se imagina estampado em outdoor
É tudo pose, é tudo pose, é tudo pose
Preocupados com olhares ao redor

Pra entrar no carro
Pra sair na rua
Tudo, tudo vira pose, é bem pior que na TV

Pra tirar um sarro
Cada um na sua
Inventando pose até para morrer

É tudo pose, é tudo pose, é tudo pose
A vida, vida sempre foi assim
É tudo pose, é tudo pose, é tudo pose
Sai dessa podre ou vê se sai de mim

Pose pra quê?
Pose pra quem?
Com essa pose você não vai ser ninguém
Seja você
Sai do normal
No fim de tudo a vida vira um carnaval
É tudo pose, é tudo pose, é tudo pose
A vida sempre, sempre foi assim
É tudo pose, é tudo pose, é tudo pose
Sai dessa podre ou vê se sai de mim


sexta-feira, 31 de julho de 2015

Amor Maior

O amor maior é aquele que se manifesta, se santifica e nos eleva nas grandes experiências de troca: e não nas experiências de monopólio sobre alguém ou no sentimento de posse exclusiva. Amar, amar de forma elevada e grandiosa, tem muito mais a ver com um livre fluxo mútuo de afetos e de experiências do que com transformar afetos de pessoas - e as próprias pessoas - em propriedade privada.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Ser Entre Ser e Não-Ser

Eu não sou ateu
Eu não sou teísta
Eu não sou budista
Nem muito menos socialista.

Não acredito em uma ideia de justiça
Nem em discurso moralista;
Não,
Não sou do bem, não sou do mal.
Não acredito em quem se diz "normal".

Não tenho crença no Império da Razão
Nem muito menos quero a sua "felicidade".
Não tenho causa que santifique a compaixão
Nem muito menos para não vê-la como crueldade.

Posições fixas e rótulos
são para os fracos de espírito.
Tenho mais risos e criações
do que amor a convicções...

terça-feira, 23 de junho de 2015

O Barco Além do Sol

De todos os trabalhos posteriores ao fim da Legião Urbana, acho que esse é o mais primoroso dentre os trabalhos dos ex-integrantes da banda.

Marcelo Bonfá une uma refinada poesia [pitadas de Fernando Pessoa são nítidas em algumas letras, como nos versos "Navegar é preciso e viver é um tanto impreciso" (O Veleiro de Cristal) ou "Sei que tenho em mim todos os sonhos do mundo" (Todos os Sonhos do Mundo)], arranjos bem elaborados e atmosferas que oscilam entre a melancolia, a solidão e a esperança. Isso tudo aliado, acima de tudo, a uma sonoridade que, em um sentido holístico, possui um conjunto de detalhes e timbres que me capturaram desde a primeira canção do álbum.

"O Barco Além do Sol", lançado naquele clima de fim de século (2000), é daquele tipo de álbum que você começa a ouvir despretensiosamente, mas logo se vê envolvido numa cápsula sonora que te faz viajar para espaços e tempos interiores que você nem suspeitava que existissem dentro de você...


O Veleiro de Cristal
(Marcelo Bonfá)

"Mistério, esse não-saber
  A vida, este sonho
  O silêncio faz a verdade aparecer
  Algumas vidas se juntam e se completam/
  Outras se cruzam sem se tocar/
  Tudo o que queremos é nunca mais ter que dizer adeus..."



Álbum completo:O Barco Além do Sol (2000) - youtube

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Nietzsche

“Para se relacionar plenamente com outro, você precisa primeiro relacionar-se consigo mesmo. Se não conseguimos abraçar nossa própria solidão, simplesmente usaremos o outro como um escudo contra o isolamento. Somente quando você consegue viver como a águia, sem absolutamente qualquer público, você consegue se voltar para outra pessoa com amor. Somente então é capaz de se preocupar com o engrandecimento do outro ser humano.”

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Visceral

Quero um vazio onde possa voar
ou o infinito do céu obscuro do abismo;
Quero um precipício onde possa pular
ou  pelo menos  viver de algum risco.

Quero varar pelo lado escuro das ruas
Quero tragar, incendiar bocas nuas

Quero uma noite plena de vinho
Quero estilhaços do excesso incontido
Quero uma taça cheia de caos,

Quero uma vida viva, incisiva, visceral.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Amor Para os Fortes

Só os fortes podem amar porque só os fortes são capazes de suportar as incertezas do amor, o perigo de amar e a possibilidade de sofrer.
Amar é ter a coragem de enfrentar todos os medos que fazem parte do amor.

terça-feira, 21 de abril de 2015

Os Confins da Noite

O poeta não jaz no sepulcro
O poeta não cala seu riso, sua dor
Vive e fala entre tantos corpos
Descobre, nas esquinas da vida, a medida de suas vísceras

O poeta não some: assume a vida
O poeta não desiste de parir suas honestas falácias
Assombra e insiste entre tantos rasos

Mergulha nos confins da noite, apanha os confins dos astros...

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Anonimato Como Meta

Não tenho o desejo da fama gratuita e a todo custo que reina na nossa época. Se for para ter isso como a façanha mais relevante que posso realizar na vida, prefiro o anonimato. O anonimato - a invisibilidade - como sinal da minha mais aguda autenticidade.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Afirmar a Vida

Afirmar a vida, dizer um sagrado "sim" a tudo que me é proporcionado por ela! 
Sem rancor, sem ressentimento, sem vingança!
Abraçar o que há de extraordinariamente mágico e de profundamente trágico nela!
Sim. Com imensa gratidão, dizer "Sim" a ela. 
A vida é boa.

Dois Gumes

No grande punhal,
fatal,
homicida do amor
há, se houver tantos
(tantos prantos),
ao menos, dois gumes:

A atenção não dada
(a importância do outro desprezada)
E as palavras continuamente não ditas.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Um Flash Aterrorizante

Estupefato de estar vivendo em uma época na qual as pessoas tem opiniões de uma hora para outra, tem opiniões o tempo todo e acerca de tudo. 
Vinte e quatro horas atrás, nem sequer sabiam da existência de dada situação, daquele indivíduo, de “crise no Nepal”, de chacina no prédio vizinho, nem disso nem daquilo. No entanto, como num passe de mágica, todos ficam sabendo de algum ocorrido e, na velocidade de um flash, já expressam opiniões (opiniões que, em muitos casos, não tem um quê de originalidade – são reproduções ipsis litteris de algum articulista –, primando pelo simplismo, pela superficialidade). Realmente, um quadro aterrorizante que eu não tinha imaginado nem no pior dos meus pesadelos.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

2015

Que dois mil e quinze
Não nos seja um dois mil e quase...
Que dois mil quinze
Não nos seja um "quem sabe depois"... 
Que esse novo tempo 
Seja realmente um ano ímpar:

Ímpar de afetos ímpares
Ímpar de amizades ímpares
Ímpar de amores ímpares
Ímpar de aprendizados ímpares
Ímpar de sensações ímpares
Ímpar de realizações ímpares
Ímpar de intensidade e amadurecimento ímpares.

Façamos, então, desse novo tempo que desponta 
Um tempo ímpar, 
Uma vida ímpar,
Uma poesia ímpar
De nossas próprias vidas.

*O autor deste blog deseja um 2015 ímpar para todos vocês que vem acompanhando todos os textos publicados nesse espaço virtual durante esse pouco mais de 3 meses de existência do blog.

Forte abraço.
Rodrigo Capistrano.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Conquistar a Si Mesmo

Em toda nova conquista de si mesmo há, quase sempre, um misto de amor comovente e destruição violenta: destruição daquilo que não nos pertence mais e amor ao sentimento arrebatador de estarmos sendo nós mesmos.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Desejo do próprio desejo

Amar não é desejar
Que o outro deseje
O nosso desejo.

Amar é, quiçá,
Aprender a deixar
Que o outro aprenda a desejar
O seu próprio desejo.

Amar é, assim, deixar esse desejo voar
E, quem sabe, voltar
Se o outro desse desejo
Agarrar seu próprio desejo
De retornar.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Minha Felicidade

MINHA FELICIDADE NASCE
QUANDO HÁ
UM GRITO
ATÉ NO MEU SILÊNCIO,
QUANDO HÁ
UMA EXPLOSÃO NAS VÍSCERAS,
QUANDO ATÉ A DOR É FONTE
- PONTE -
 PARA A INTENSIDADE DA VIDA.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Desejo do Infinito

Meias palavras
não me bastam,
ou até mesmo
se as tivesse inteiras,
pois tenho
o desejo
do INFINITO.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Precipício

Meu domingo é um instante místico,
É como uma prece,
Longe da pressa...

Olho pro céu, azul precípuo,
Como se fosse um princípio,
Pressinto:
Talvez, princípio do meu precipício.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Sobre Pontes e Abismos (parte 1)

Segunda-feira. Temperatura noturna amena. Noite incomum para tentar fazer alguma coisa incomum.

Mesmo assim, eu havia recebido um e-mail no dia anterior de um antigo colega de faculdade me convidando para prosear sobre um lance que havíamos conversado cerca de dois anos atrás e que, só agora, dizia ele no e-mail, havia percebido o sentido daquilo na vida dele.

Não que fosse muito incomum, para mim, receber e-mails, mensagens ou telefonemas de pessoas com quem eu havia tido certa conversa sobre determinado assunto e que, depois de um tempo relativamente considerável e após um silêncio inquietante sobre o que havíamos conversado, voltavam a me procurar como se tivessem descoberto a pólvora. “Preciso falar com você. Urgente!”. “Ok, marcado, nos encontramos no local”, minha resposta recorrente. Afinal, gosto disso, sempre fui meio psicólogo mesmo, e me deparar com crises pessoais alheias me estimula de certa forma. Isso pode soar meio sádico de minha parte (do tipo “a dor do outro me estimula”), mas, se isso for sadismo, é de um tipo mais interessante, que me liga quase que fraternalmente ao outro.

Mas, como eu vinha falando, o fato de alguém me contatar tempos depois envolvido em alguma crise/dilema não era incomum. O incomum residia em outros fatos. Primeiro, o tom formal do e-mail. O Fábio parecia estar escrevendo para algum desconhecido ou para alguém com quem ele tinha tido pouco contato. E esse não era, absolutamente, o caso da minha relação com ele. Havíamos passado, durante a nossa graduação em Jornalismo, quase 5 anos nos encontrando 5 dias por semana pelo menos. Éramos da mesma turma e, nos primeiros 3 anos de curso, tínhamos um contato permanente, para além até de assuntos acadêmicos (provas, projetos, trabalhos, enfim). Claro que nos dois últimos anos de curso havíamos nos afastado um pouco, principalmente em virtude de nossas visões diferentes sobre as coisas terem ficado cada vez mais evidentes. Além disso, o Fábio havia arranjado uma namorada nesse momento e eu continuei com minha vida amorosa donjuanesca.

Mas acho que o momento crucial para esse afastamento foi a conversa que tivemos e que, agora, o Fábio queria retomar comigo. Basicamente, umas viagens sobre Filosofia e sobre a incerteza das coisas. Na época, o Fábio tinha muitas certezas, era católico, acreditava na firmeza dos valores, e eu era um tipo cínico e cético. O choque de visões ficou muito mais acirrado nesse dia. Apesar disso, nunca tive muito problema em conviver com pessoas com visões muito diferentes das minhas. Como todo bom cético, eu não me levava muito a sério. Mas o Fábio parece ter se ressentido com a nossa conversa. Ficou uma semana sem olhar para minha cara e, nos dias posteriores, se limitou a me cumprimentar com um “Oi” ou um “Tchau”.

E, agora, do nada, o Fábio queria conversar comigo. Porém, como se fôssemos estranhos: “Envio-lhe esse e-mail, caro Petrus, convidando-o para uma conversa sobre o referido assunto. Sei que vossa pessoa possui grande maestria no plano das especulações filosóficas. A conversa é de extrema urgência e importância para a minha pessoa. Desde já, peço perdão pelo incômodo e agradeço-lhe a atenção. Aguardo sua resposta. Ass.: Fabio Malta.”. “Peço perdão pelo incômodo”? “Vossa pessoa”? “Que porra é essa?”, pensei.

O segundo ponto estranho do e-mail era o local do encontro: um clube noturno que iria inaugurar justamente um dia depois, em plena segunda-feira, e se localizava no limite leste da cidade, entre o nada e o lugar nenhum.

Pela curiosidade, relevei as “estranhezas”, aceitei o convite e respondi ao e-mail como de praxe. Às 22 horas, eu estaria no local combinado.

Dez da noite e eu estava em frente ao local como acertado. Resolvi entrar. Um frisson correu pelo meu corpo. Parecia que eu estava passando por uma espécie de torpor assim que entrei no Clube Sun-House, situado entre a rua Onório Silvestre e o antigo Beco do Entrudo.

A iluminação do local era bem sugestiva, uma coisa meio turva, meio mortiça, que instigava um certo estado de desnorteamento. Logo no início do salão, havia mesas empoeiradas distribuídas confusamente, organizadas por alguém não muito preocupado com noções de simetria. Percebi também mais uma coisa: um som que vinha de um local mais aos fundos - parecia ser de um espaço onde, na maioria das boates noturnas, as bandas convidadas tocam. Apesar de não ter ouvido nada quando eu estava do lado de fora, dentro do Sun-House o som parecia mil vezes amplificado. Ondas sonoras impactavam meus tímpanos e socavam meu rosto.

“Five to one, baby/ One and five... No one here gets out alive… Now, you get yours and I get mine/ gonna make it baby if we try…”. Consegui identificar esses versos e, em meio a uma vertigem que só crescia, lembrei de que se tratava de versos de uma das músicas do The Doors. De repente, um estrondo ecoa pelo salão:
- “Geeeet Together one moooooore tiiiiiiiiiiiiiimeeeeeeeeeeeeeee/ Geeeet Together one more tiiiiiiiiiiimeeeeeee… WwwwwwwwwwwwwoooooooooWWWWW!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!”

Era o ápice da canção. Um grito lancinante que contagiou as pessoas que estavam próximas a mim. Elas começaram a se contorcer emitindo grunhidos informes, debatendo-se umas contra as outras. Eu fui empurrado para dentro do furacão de pessoas. Senti uns golpes no abdômen e algumas mãos que me apertavam pelo corpo todo. Os braços, as pernas, os ombros, o peito, o pênis. Nada escapava. No meio dessa confusão, isso eu já mergulhado numa espécie de transe integral, senti lábios tocarem os meus. Percebi que conhecia aquele jeito de tocar na minha boca. Era Sofia. A porra-louca que eu havia conhecido e transado num dos meus últimos porres homéricos, mas que havia sumido do mapa no último mês e que eu só soubera de boatos sobre o seu paradeiro: Rio? Teresina? Recife, talvez?

Continuei submerso no Vesúvio humano por mais algum tempo e, não sei se porque havia ficado inconsciente por algum tempo ou se porque as pessoas realmente, de súbito, haviam se afastado, me dei conta de que a música havia cessado e eu estava parado, espalhado pelo chão sujo do Clube. Esfreguei meus olhos para ver melhor o que estava ao meu redor e, ao afastar os dedos da visão, senti alguém (provavelmente, Sofia) pôr as mãos na minha boca. Simplesmente, apaguei depois disso. Não me lembro de mais nada. Quando recobrei um pouco da consciência, estava sentado em uma cadeira velha nos fundos do Clube. Havia dois homens me fitando. Sofia ajoelhou-se para me encarar olho-no-olho. “O que está acontecendo?”, perguntei com uma voz ainda sonolenta e sussurrante para Sofia. Ela me olhou, afastou-se, parou próximo aos dois homens. Passando pelo meio dos três, apareceu Fábio, vestindo preto dos pés a cabeça, usando óculos escuros, e fumando alguma coisa (não arrisco a dizer que era só cigarro).

- Saudações, caro Petrus, disse ele se aproximando.
Tentei me levantar.
- O que está acontecendo? Por que eu estou nessa merda de cadeira? E esse clube parece mais uma espelunca do que um clube que está sendo inaugurado...
- Ora, ora... Hehehe... Quantas perguntas... Enigmáticas?
- Cara, vamos conversar civilizadamente, mas, primeiro, vocês me deram alguma coisa para tomar?
- Ok... nossa conversa será rápida. Podem sair vocês três, falou virando-se para Sofia e os dois homens. Ao saírem, Fábio começou.

Continua...

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

O Atributo da Diferença

Quanto mais convivo com as pessoas e mais experimento a vida, mais me convenço sobre a absoluta singularidade de cada coisa. É como se cada gesto, cada traço, cada recanto, cada chão, cada grão fosse um evento raro, uma explosão inaudita e única da existência. Um emaranhado insólito e sem equivalente é o que parece ser cada coisa, sem nada igual a não ser o atributo da diferença.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Odaxelagnia

Fisgar a pele com afetuosa destreza,
Morder as maças que brotam no teu rosto,
Rasgando o gosto doce
que escorre por entre as fontes do teu corpo

Um beijo que fere, alveja, desconcerta
Um beijo que afaga, excita, fortalece

A vida borbulhando nas artérias,
A tua pele nua e crua murmura.
Teu ventre pálido... meu desejo cálido...

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Instinto Gregário

Os sectários, os partidários, os grupos, as coletividades, os movimentos gregários: há quase sempre nesses espaços muita crença – essas formas de vida acreditam demais no que falam, no que escrevem, no que pensam. Parece não haver espaço para suspeitar da palavra.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

À Palavra Selvagem

Faço poesia como idioma próprio.
Detesto dicionários e suas expressões domadas,
Escrevo alucinações da palavra,
Iluminações do meu intraduzível silêncio.

Clarões fazem parte da minha inconfessada intuição.
Assassino a língua mórbida e rotineira para redimir a poesia,
Esse é meu próprio Inferno:
Para lá sempre subo, preciso voar para alcançar;
Sou poeta, não sou santo.

Se almejo alguma santidade,
É aquela que faz revirginar os sentidos:
Preciso ser íntimo do meu próprio Inferno para isso.

Meu milagre é saborear um novo som
Degustar cheiros de minha nova língua subvertida,
Incompreendida.

Por vezes, relembro memórias minhas que não vivi
Por outras, experimento o veneno da minha sina
Minha sina é meu amargo remédio.
À minha sina eu escrevo um ignoto sim.

*Um poema meu que, hoje, dedico aos 160 anos de Rimbaud.
Cada poeta possui alguma coisa próxima da santidade. A quase-santidade de Rimbaud era ser íntimo do próprio Inferno. Guardei esse ensinamento pra mim. 

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

C’est tout la même chose?

Cada coisa não é a coisa
No sentido da coisa completa.

Cada coisa, assim, é uma não-coisa
Que só chamam de “coisa”
Por ser parente mais próxima 
da ideia da coisa completa...

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Silêncio e Sensação

Hoje sou apenas sensação sem nome:
Nem dor, nem gozo, nem êxtase ou melancolia.
Hoje sou só algo de além do dito:
O dito pelo não dito? Algo de interdito.

Hoje não sou frisson, angústia, espanto,
Não sou rancor, furor, medo, pranto.
Hoje sou só algo que escapa a qualquer palavra:
Alguma coisa de intocada, ainda imaculada.

Enfim:
Hoje a poesia é pouca,
A métrica é estreita,
A estrofe é curta.

Talvez, hoje, o silêncio tenha
Algo de mais exato
Para expressar
A inexatidão
Do que sinto.

domingo, 12 de outubro de 2014

Posicionamento Estético

O mais chato do período eleitoral são as muitas certezas que rondam por todos os lados. Todas as taras, manias e tiranias pessoais parecem converter-se em escapismos (diante do enfrentamento da ausência total de referências sólidas) que convergem para um discurso de salvação e redenção que, supostamente, somente a política poderia nos dar. Não quero isso pra mim. Não tenho certezas. Não preciso de verdades universais externas a mim. Não possuo opiniões políticas pela verdade. O máximo que eu posso vir a ter é um posicionamento estético, assim como o tenho em tudo o que eu escrevo.

sábado, 11 de outubro de 2014

Pugilistas do Espírito

Escritores interessantes são como que pugilistas do espírito: não afagam - provocam hematomas existenciais.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Versos Brancos

A lua dessa noite flameja e nos leva aos portais do excesso:

nos caminhos feitos das pedras da desrazão,
nos atalhos feitos de risos tresloucados,
vejo o esplendor dos horizontes que brotam da desmesura.
Então, para lá voemos.

Voemos na caravana dos loucos, dos poetas e sátiros.
A aventura é pródiga e a estrada vai para além do que já trilhamos.
Que nosso deslumbre não se arrefeça, e se renove a cada primavera:
como esse uivo cálido que transborda a noite, 
e traduz a vida - libido infinita e desvairada.

domingo, 5 de outubro de 2014

O Circo

No picadeiro eleitoral da democracia representativa, há uma figura típica: o mágico ilusionista. E, como não poderia deixar de faltar, também há a figura cômica do palhaço: esse paga para ver o espetáculo do primeiro.

sábado, 4 de outubro de 2014

Um Caso do Acaso

Eu tenho problemas. Sérios problemas. Acho que nasci pelo avesso ou as pessoas me enganam muito bem.

É que, sinceramente, não tenho grandes problemas de não ter uma vida social externa agitada. Uma vez li num livro: “Nunca sofri por causa da solidão: eu sempre sofri foi por causa da multidão”. E não pense essa sentença como algo do tipo “sofro pela maldade humana, pela miséria do mundo, pelas crianças que morrem de fome pelo mundo”. Não. Não era essa a intenção da frase. Ela queria simplesmente revelar que, quando se tem uma vida social interna caótica, quando vários eus dentro de você conversam, criam e seguem horas a fio numa discussão inventiva e calorosa, a vida com pessoas de carne e osso se torna, inevitavelmente, dispensável.

Mas, obviamente, existem exceções: intervalos na minha permanente rota de colisão comigo mesmo. Raros momentos em que alguém (e não um vulto do pensamento) aparece e produz uma atmosfera fantástica.

Há cerca de dois meses, numa quarta-feira, aconteceu justamente um desses casos. Estava eu, como de hábito, perambulando em uma loja de cd’s, essa espécie de loja comercial em extinção, situada em uma ruela do centro da cidade. Em um instante, percebi uma garota, com feições atípicas, um cabelo com uma tonalidade vermelha incomum e uma roupa mais incomum ainda, dentro do estabelecimento. Começou a observar as prateleiras a certa distância de mim. De soslaio, olhei para sua mão que segurava um livro e tentei ver o título ou autor: título desconhecido, e autor, mais ainda. Até que, de forma inusitada, ela se aproxima e me diz: “Saquei você. Sempre que, esporadicamente, venho aqui, não é muito comum ver caras jovens. Lugares em extinção, como esse, quase inabitados, são ótimos lugares pra pessoas que apreciam o cultivo de si.”.

Eu fiquei fascinado pelo último trecho (“o cultivo de si”, que nada tem a ver com misantropia ou medo de conviver com outras pessoas) e sorri para disfarçar o espanto. Meio despreparado, disse a ela que o que ela havia falado era um pensamento interessante e que, talvez, tivesse ligação comigo. Com ela era quase certo. Agradeci pelo pensamento. Então, ela me disse que precisava sair para voltar a cultivar a si em outro lugar. Porém, um pouco antes de deixá-la ir, perguntei se podia olhar o livro que estava em suas mãos. Peguei-o e tive a ideia de presenteá-la com um pensamento, que escrevi, rapidamente, na contracapa do livro:

“Enquanto lá fora há aqueles que procuram insistentemente o valor da própria alma, eu busco cá dentro. Talvez tenha nascido com essa benção, com essa maldição: enquanto acham que estou com a alma perdida, eu a encontro e encontro meu valor no meu próprio coração.”

Depois disso, devolvi o livro. Ela saiu pela entrada da loja e sumiu da minha vista. Desde então, nunca mais tornei a encontrá-la... Talvez ela tenha conseguido habitar o próprio coração...

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Terra Devastada

Terra devastada,
ofegante terra devastada, 
onde cambaleante divindade não se põe firme de pé.

Sôfrega morada dos últimos suspiros da arte,
ocultados pela gritaria do circo das palavras imediatas.

Desenganada terra devastada:
até quando serás miragem delirante,
oásis excruciante,
infecundo fetiche de fé?

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Lúgubre

Há coisas que nos deixam inertes,
que esvaziam nossas cabeças.

Estáticos, vidrados no horizonte do nada,
deixando o tempo passar,
os nervos retorcem por dentro,
enquanto nossos olhos, perplexos, fitam a estrada:
seguem o rasto do lúgubre crepúsculo...

*"Nessa casa nascemos, nesse mundo fomos jogados, como cão sem osso: um ator atuando sozinho..." (Jim Morrison)

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Um Faroeste Sobre o Terceiro Mundo
















Acho o "Psicoacústica" do IRA! um disco fundamental para qualquer apreciador de rock. É daqueles álbuns visionários que abrem fendas e antecipam o que está por vir. Um puta disco de vanguarda. Ele é cheio de experimentalismos, sobreposição de guitarras, efeitos que soam como referências à psicodelia e elementos de "rap-embolada" que remetem à sonoridade do que viria a ser o "manguebeat" na década de 90.

Mas o que me chama a atenção também no "Psicoacústica" é a coragem e a postura do IRA! de ter enfrentado de peito aberto uma indústria fonográfica e um mercado que não estavam habituados a esse tipo de aventura sonora. Basicamente: a indústria dizia que não vendia (a WEA só prensou o disco porque tinha um contrato com a banda) e o mercado nacional era, realmente, imaturo demais para aceitar um rock que não fosse o "feijão com arroz".

Mas o IRA! simplesmente deu de ombros. Lançou um álbum que falava de crime, de morte, de sangue, que questionava o "bom-mocismo" e as mitologias forjadas para criar "heróis" na sociedade; isso com canções um tanto longas, que fugiam dos padrões comerciais da época, sendo que quase todas passavam da marca dos quatro minutos.

Um disco cheio de energia e que exala, poderosamente, a ousadia quase sempre necessária para quem é artista (e não um mero "entretenedor"). Um disco que, acima de tudo, não se preocupava em agradar a todo custo. Se preocupava, sim, em vislumbrar novos horizontes e novas possibilidades para a música ou, em última instância, para o rock'n'roll. 

Rubro Zorro


Trata-se de um faroeste sobre o terceiro mundo...
O caminho do crime o atrai
Como a tentação de um doce
Era tido como um bom rapaz
Foi quem foi
Ao calar da noite
Anda nessas bandas
Do paraíso é o zorro
Rubro zorro
Espertos rondam o homem
Um tipo comum
Tesouro dos jornais
Sem limite algum
Luz Vermelha foi perdido no cais
Do terror
Um inocente na cela de gás
Sem depor
Luz Vermelha foi perdido no cais
Dos sem nome
Era tido como um bom rapaz
Tal qual o "Golem"[*]
Sou o inimigo público número um
Queira isso ou não
Por ser tão personal
Personal, personal...
O caminho do crime o atrai
Como a tentação de um doce
Foi calado na cela de gás
O bom homem mau
No asfalto quente
O crime é o que arde
Bandidos estão vindo
De toda parte
O caminho do crime o atrai...
É na cabeça...
Seu poder racional...
É na cabeça...
Personal, personal...
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[*] Personagem da mitologia judaica, é um boneco de barro em forma de homem que ganha vida por meio de um ritual mágico. Seu criador deve escrever em sua testa a palavra "emet" (verdade), e ao apagar a primeira letra (da direita para a esquerda, direção em que se escreve no idioma hebraico), forma-se a palavra "met" (morto) e assim o "Golem" é desfeito.
Sem alma e, conseqüentemente, sem vontade própria, é criado para servir, realizando trabalhos pesados ou até pequenas tarefas repetitivas do dia-a-dia, além de defender seu criador de qualquer ameaça.