quinta-feira, 11 de setembro de 2014

O Insustentável Peso das Coisas

Nos últimos dias, estava sendo tremendamente difícil para Glauco viver a rotina que vinha vivendo nos últimos tempos. Estranhos sintomas vinham lhe acometendo sempre que botava o pé fora de casa.

Glauco era assistente administrativo em um escritório de advocacia. Seu trabalho se resumia a assinar papéis, encaminhar processos, agilizar tarefas burocráticas. Era isso - e apenas isso - das 8 da manhã às 6 da tarde (com um intervalo de duas horas para o almoço). Há 5 anos sua rotina era essa. O trabalho era mecânico mesmo, não havia espaço para algo a mais. Bem, havia o salário, que era relativamente compensador. Mas, estranhamente, agora Glauco estava sendo atacado por náuseas e crises de ansiedade sem fim. Já havia semanas que ele vinha sendo massacrado por uma sensação de que havia algo entalado em seu peito. Angústia. Sim, angústia. Aquilo que nos toma de assalto e que não sabemos explicar muito bem o motivo. 

E, particularmente hoje, ao sair de casa e dirigir seu carro até o escritório, Glauco, além dos sintomas recentes, foi tomado por um estado que beirava a uma crise de pânico. O que piorava a situação é que ele estava no meio trânsito e, além disso, teimava em não contar para ninguém o que estava se passando. Então, telefonar para algum conhecido, nem pensar. Sua vaidade não deixava. Era homem e “homem” tem de ser forte, a fraqueza é sinal dos fracassados, assim pensava ele. Sua namorada até andava desconfiada de que algo de incomum se passava com ele, insistiu umas duas/três vezes para ele se abrir com ela. Mas nada. Ele até esboçava um tom de incômodo com isso. “Não há nada, eu já falei. Está tudo bem, oras. Agora, se você não confia no que digo, qual é o significado de estarmos ainda juntos?”.

É, mas ele estava realmente passando por um período difícil. Não conseguiria esconder seus abismos existenciais por mais muito tempo. Agora Glauco estava no meio do trânsito - cercado por carros que buzinavam loucamente - sofrendo fortes náuseas, angustia e, provavelmente, iniciando uma crise de pânico. No meio do delírio e da vertigem, recordou de um pensamento que sua avó materna sempre lhe falava quando ele era criança e estava com medo: “Desloque seu pensamento para algo prazeroso, congele esse algo e fixe-o por um minuto na sua imaginação. Se o medo for de algo que não seja digno de ter realmente medo, então ele se evapora.” E foi isso que Glauco começou a tentar fazer antes que aquilo acabasse em algum acidente catastrófico ou, até, em algo pior. 

Fixou o pensamento em Beatrice, sua mãe, que falecera há dois anos vítima de um câncer brutal. Glauco era filho único e atravessou a doença da mãe praticamente sozinho ao lado dela. No estágio final da doença, Beatrice estava irreconhecível e já nem sequer reconhecia mais Glauco. 

Mas ele não pensou nesse episódio diante da atual crise. Na verdade, deslocou seu pensamento para um dia em que saiu com Beatrice para o principal parque urbano da cidade. Glauco contava 7 anos de idade e era a primeira vez que visitava um parque daquele tipo. Tudo foi encantador naquele dia: o verde exuberante de todos os recantos, os bichos - raros de se ver no cotidiano da cinzenta vida urbana -, o lago, os andadores, os brinquedos e as brincadeiras com a sua mãe. Recordou particularmente de um momento: Beatrice o abraça, passa-lhe carinhosamente sua mão afável por sobre a testa dele, beija-lhe maternalmente nesse local e diz “Eu sempre vou te proteger, Glauco, nunca vou deixar que algo de mal lhe aconteça. Você é pessoa que mais amo no mundo”. 

Beatrice já havia falado algo parecido para o menino Glauco em outras oportunidades, mas em nenhuma delas ele havia sentido o impacto e a profunda consciência do que ela havia falado como nesse episódio. Talvez o ambiente, o clima e o momento tenham dado uma atmosfera diferente e ampliado a sensibilidade do menino. Nesse dia, Glauco se sentiu o garoto mais especial do mundo e protegido contra tudo que pudesse abalar sua satisfação e conforto.

Assim, essa experiência infantil se cristalizara, então, na cabeça de Glauco por alguns instantes. Seus batimentos cardíacos, que tinham tido a frequência aumentada devido ao início da crise de pânico, iniciaram o retorno ao ritmo normal e ele começara a ter seu autocontrole restituído. Sua condição orgânica não voltou completamente ao normal, mas o conselho de sua avó materna e o regresso à experiência infantil com sua mãe o ajudaram a chegar ao escritório sem maiores prejuízos.

Descendo do carro, de súbito lhe veio uma vontade incontrolável de visitar o túmulo da mãe. Não conseguiria trabalhar hoje se não fizesse isso. Sem avisar a ninguém, e ainda com resquícios dos sintomas que o acompanhavam àquela manhã, entrou novamente em seu veículo, partindo em disparada ao cemitério onde jazia Beatrice. 

Durante o percurso não pensou em nada, a não ser na angústia que havia aumentado. Estava em um estado que nem percebeu sua direção perigosa, parecia que uma força, que dissolvia a noção espaço-tempo, o puxava irresistivelmente para aquele local. Ele não sabia explicar que força era essa.

Em pouco tempo, chegou ao túmulo da mãe. “Beatrice Neri – 1956/2010”, resumiam os sinais gravados na lápide. Imobilizado e atravessado pela lâmina da angústia, Glauco começara a ter presságios do que o havia levado até ali: uma certa necessidade interna de acerto de contas. Atingiu-lhe, instantaneamente, o que realmente sentia em relação a Beatrice. Glauco nutria dois sentimentos pela mãe: mágoa e culpa. Mágoa pela promessa materna de “proteção contra o mal” não ter sido cumprida, por ele ter sofrido várias vezes, ter sofrido inclusive e principalmente por não ter se tornado aquilo que desejava (um poeta), pois a mãe, querendo protegê-lo das incertezas de uma vida de poeta, não o encorajou a tal - e, hoje, ele era um comum profissional liberal. Mas uma culpa também lhe pesava: a culpa por sentir essa mágoa. Culpa por ter se tornado um pouco mais frio com a mãe depois de sua rejeição sutil à aspiração poética dele. Culpa por não ter chorado pela morte da mãe, embora tenha sentido certo pesar. 

Inesperadamente, sentiu algo querendo sair, algo querendo demolir as comportas as quais pareciam, antes, impedir que algo aliviasse o peso em seu peito. Lágrimas. Lágrimas. Chorou. Chorou convulsivamente, como nunca havia chorado antes. Chorou por quase uma hora. Toda a angústia contida no peito converteu-se em gotas de lágrimas. Ela fora libertada naquele momento. A estranha sensação fora sepultada ali. Talvez ali, Glauco tenha conseguido se libertar de um dos seus abismos. 

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